Resenha
por Paulo Eduardo Alves de Freitas
BRUNNER, Emil. O equívoco sobre a igreja. São Paulo: Novo Século, 2004.
A Igreja algum tempo após a morte dos apóstolos e seus discípulos, tornou-se um órgão institucional e perdeu o seu verdadeiro papel quanto significado de seu próprio nome e sentido, Ecclesia.
Emil Brunner propõe em seu livro explicar de maneira teológica, porém significativa à prática, o que é a Igreja.
Brunner foi um dos maiores teólogos do século vinte e nesta sua obra intenta mostrar ao leitor que é preciso muito mais do que mera percepção para se compreender o que é igreja de fato. Visto que atualmente apenas se aceita o que se é dito sobre a igreja. O autor de “O equívoco sobre a Igreja”, monta um quadro onde o simples espectador não pode permanecer inerte, mas precisa tomar uma posição diante das circunstâncias irreais que tem caminhado a “Noiva de Cristo”.
Primeiramente ele trabalha a questão da Ecclesia como a comunidade cristã sobrenatural. E seu ponto de vista não se iguala aos mais conhecidos. Por exemplo ele não concorda que a igreja verdadeira seja apenas a invisível, e pensa assim, pois a igreja visível deve ser uma igreja de cristãos de fato e não um corpo que não se sabe quem faz parte dele.
Por exemplo, Brunner não faz distinção entre vida espiritual e secular, para ele, alguém é cristão ou não é. Não há como dividir a vida em duas fases, aquele que adora a Deus no “contexto de igreja” é o mesmo que deve O adorar no contexto de trabalho, escolar, entre os não cristãos ou onde quer que seja.
Para ele a igreja não é uma organização individualista, se assim o fosse não deveria ser chamada igreja, sendo que seu próprio nome indica uma “reunião”. Ela ainda que seja sobrenatural, não deve ser invisível apenas, mas todo o cristão verdadeiro deve ser percebido como tal.
Emil Brunner relata que a “Ecclesia do Novo Testamento, a comunidade dos crentes cristãos, não é precisamente aquilo que cada “igreja é ao menos em parte – uma instituição, um algo. O corpo de Cristo nada mais é do que uma comunhão de pessoas”.
Essa comunhão é estabelecida a partir da fundação da igreja em Cristo, e a mesma permanece pelo poder e atuação do Espírito Santo, e Ele mesmo promulga a comunhão entre os irmãos, sendo que onde há o Espírito há comunhão. E a comunhão do homem deve estar intimamente ligada à comunhão com Deus.
Dessa forma o problema da igreja que Brunner percebe vai aparecendo e logo se percebe que, o equívoco está na concepção de igreja que temos, ela se tornou meramente institucional e perdeu o seu caráter de comunidade.
Dessa maneira ele entende que: “a Ecclesia do Novo Testamento, a comunidade de Jesus Cristo, é uma comunhão pura de pessoas e nada tem do caráter de uma instituição” e define: “é, portanto, enganoso identificar qualquer uma das igrejas desenvolvidas historicamente – todas marcadas por uma caráter institucional – com a verdadeira comunhão cristã”.
Em sua finalização fica algo que compreendo não poder ser aceito em sua totalidade, visto que ele mesmo disse que a comunhão verdadeira somente pode existir pelo Espírito Santo, logo se aceitarmos totalmente sua conclusão, parece que não há igreja de fato nos dias atuais e nem no período pós-apostólico. A compreensão a que chego é que a igreja perdeu parte de seu caráter comunitário, todavia, não deixou de existir como igreja, pois o mesmo Espírito habita no meio dela e lhe confere a verdade e comunhão como corpo de Cristo.
Concordo, porém, que precisamos rever o conceito do que é igreja, pois se não o fizermos o fim será o que Brunner já declara ser a muito tempo, a igreja deixou de ser igreja.
Brunner, após identificar o problema da igreja, passa a discorrer sobre a origem histórica da Ecclesia. Ele traça um linha onde demonstra que a igreja veio a existir primeiramente como uma seita judaica, até tomar sua forma. Isso, diz ele, fica implícito em todos os rituais e meios de se adorar a Deus. E demonstra ainda que o próprio Deus a reconhece no Antigo Pacto, como o “Seu povo”. No entanto, a comunidade eclesiástica dos cristãos ainda que possa ser discriminada entre a comunidade judaica, elas são unidas em Cristo pelo Espírito, uma união entre todos aqueles que são de fato salvos.
Quanto a Jesus Cristo, Brunner o identifica não como o fundador ou instituidor da Ecclesia, mas como sendo o cabeça dela, ou seja, quando se olha pra Cristo, quando Ele fala, Ele relata a igreja. E a igreja deve demonstrar-se corpo de Cristo.
Daí Emil passa a discorrer sobre os apóstolos e a comunidade, pra ser mais exato ele relata sobre a autoridade apostólica e diz que os apóstolos tinham autoridade com tempo limitado e intransferível em toda a sua proporção. Visto que ninguém poderia ser como eles, pois eles foram testemunhas oculares da vida e obra de Cristo e ainda receberam dEle mesmo o chamado.
Segundo o autor, a autoridade que os apóstolos receberam não era a de governarem sobre a igreja, mas de serem servos. Além desta ainda havia a autoridade da palavra, pois eles poderiam escrever as Escrituras.
Logo o legado que os apóstolos deixaram para os outros tempos foram a Palavra escrita, como sendo a palavra do próprio Deus, pois eles tinham essa autoridade, e também a tradição. E aqueles que vieram após eles poderiam apenas dirigir a igreja do Senhor, mas jamais com a mesma autoridade.
Quanto à tradição o escritor traz um capítulo relatando bem sobre esse assunto. Para ele “tradição necessariamente está envolvida com a revelação única nos fatos históricos concernentes a Jesus Cristo”. Ou seja, todos os acontecimentos que estão ligados à vida de Cristo e daqueles que o seguiram. A tradição é responsável por exemplo pela formação do Cânon bíblico, e este mesmo é a forma escrita da tradição. Isto é uma noção cristã primitiva e noção católica primitiva.
Mas a noção neo-católica romana de tradição é bem diferente de ambas, pois nesta o próprio papa se declara a tradição, e ele é o único digno de interpretar as Escrituras e a tradição da igreja.
Dessa forma Emil Brunner declara que é impossível que estas três linhas acima citadas possam discutir algo sobre a tradição, pois ambos possuem abordagens totalmente diferentes. Assim a compreensão do leitor é que a igreja, no sentido simples e atual da palavra, está dividida e irremediavelmente sem condições de junção.
Todavia o que se apresenta também leva a compreender que não é necessário buscar união entre estas linhas, e sim, cada uma delas regularizar-se com o ensino tradicional de tradição. Tradicional à Bíblia e a comunidade primitiva cristã.
O quinto capítulo traz um assunto interessante sobre a comunidade cristã e o Espírito. De certa forma o que Brunner tenta descrever é que o Espírito Santo é o ponto principal entre o verdadeiro cristão e Deus.
Da mesma forma como Ele é também entre o verdadeiro cristão e seus irmãos na fé.
De acordo com Brunner, o Espírito Santo é alógico, ou seja, não pode ser compreendido dentro das faculdades meramente humanas. Ele diz que isto é a principal causa dos teólogos fugirem tanto em falar sobre a pneumatologia.
Porém, o que fica entendido é que o poder do Espírito Santo era principalmente para unir a comunidade cristã, pois sem Ele não há verdadeira comunhão. E Ele fazia e faz isso através de Seu poder, que atua por meio do amor e serviço cristão.
Assim o Espírito causa o dinamismo no meio cristão e este é visto na Palavra de Deus e na própria comunidade cristã.
O verdadeiro cristão que vive a vida no Espírito, sofre com um seria dualidade. Não de uma vida dúbia, mas uma dualidade de seu viver neste mundo com a promessa, em parte já cumprida, da vida celestial.
O que se entende é que enfrentamos uma batalha diariamente entre o “já” e o “ainda não”. Ou seja, já fomos salvos por meio da Palavra de Deus em Cristo Jesus, porém ainda estamos neste mundo e precisamos desenvolver nossa salvação; fomos santificados pelo Espírito Santo na Palavra do Senhor, mas ainda temos que lutar contra o pecado até que estejamos, de fato, juntamente com Deus na glória dos céus. Esta luta é patente na Ecclesia, sendo que seus membros aguardam à revelação total de Cristo, o Senhor.
Brunner explica isso da seguinte forma: “O espiritual é escatológico e o escatológico é o espiritual”. Ele se utiliza desse argumento para tentar resolver o problema ainda da igreja, pois ele afirma que a “comunidade que aguarda, em esperança, pelo retorno do Senhor, e que vive pela fé e amor na posse de Seu Espírito, não pode ser uma instituição”.
Para o autor uma verdadeira comunidade cristã, que não vive como uma instituição, não exerce governo no sentido de manipulação, porém o notável nesta comunidade é a disposição para o serviço, onde cada membro desenvolve conjuntamente o próprio corpo de Cristo.
O principal propósito da Ecclesia é fazer jus a seu nome, isto é, ser comunidade do povo de Deus, que se reúne ou congrega com um único intuito, a adoração divina. Porém nunca invalidar o fato de edificação entre os membros, visto que a igreja não o é apenas em ajuntamento, mas mesmo quando os membros se encontram em lugares individuais, continua a interação da Ecclesia.
Outra forma da Ecclesia manifestar tanto a adoração divina quanto o serviço e edificação do corpo é através dos sacramentos, pois estes trazem à memória a relação cristã com Deus e identifica os irmãos uns com os outros. “Eles pertencem à vida interior e natureza essencial da comunidade cristã (...). Mas eles não a produzem. Eles são dados para ela, mas ela não vem a existência por causa deles. A comunidade vem a existência através da Palavra e do Espírito de Jesus Cristo, que recebemos em fé”.
De certa forma a Ecclesia, sofreu uma série de desenvolvimentos. Ainda na era apostólica ela, passou de uma comunhão espiritual para uma comunhão sacramental e experimental. Emil Brunner vê isso como necessário, pois permite aos cristãos uma melhor interação. Todavia o desenvolvimento não para por ai e atinge o estágio institucional, isso logo após a era apostólica. E a comunidade espiritual, passa a dar lugar a uma estrutura legal.
Enquanto antes os serviços não tinham nenhum grau de privilégio, agora os ofícios tinham as suas prerrogativas, e a autoridade eclesiástica assume seu papel governamental. Com isso aparecem interpretações incorretas com relação ao serviço cristão. Afirmam que a mera imposição de mãos transfere não apenas autoridade, mas o próprio ofício apostólico.
Porém a maneira coerente de se entender é que um dom ou serviço cristão somente é transmitido por meio do Espírito Santo. Ao que parece sempre se torna notável o fato de ser tanto o Espírito que mantém a unidade da comunidade cristã, quanto é ele mesmo que atua em cada membro do corpo de Cristo para a edificação.
Assim a instituição “Igreja”, não pode cobrar para se a transferência de algum ofício, nem mesmo o apostólico, não no sentido que o foram os primeiros apóstolos. Isso porque o ofício não pode ser transferido.
Nesse ponto Emil Brunner faz uma clara distinção entre a comunidade cristã e a igreja. A comunidade cristã, ou Ecclesia é a que se encontra basicamente no contexto neotestamentário, enquanto a igreja, que para ele diferencia de Ecclesia, não pode ser notada neste mesmo período.
Quando ele fala igreja como instituição, não invalida o termo em prol de sua interpretação. Pois ele mesmo relata que a Ecclesia é igreja, mas no sentido verdadeiro e latente a obra de Cristo.
Ela não é apenas um mero ideal, e os apóstolos não a viam assim, “mas a realidade na qual eles viveram como apóstolos de Jesus Cristo”.
Emil Brunner tenta lançar em sua tese argumentos que demonstram a necessidade de revermos o conceito de igreja no sentido do Novo Testamento e analisar a Ecclesia não como uma teoria apostólica, mas como um fato, uma realidade. A Ecclesia é um modelo de vida da comunidade cristã e também um fato real da história.
Mas mesmo assim, ele afirma que hoje é impossível ver a igreja como não sendo uma instituição.
Na história das igrejas Emil Brunner relata que muitos foram aqueles que tentaram trazer à tona o verdadeiro sentido da Ecclesia, no entanto não conseguiram.
Isso aconteceu devido após lançarem a verdade não possuírem seguidores capazes de continuar o mesmo empreito ou por eles mesmo incorrerem no erro que lutavam contra.
O principal motivo disso é que o real sentido de igreja desapareceu, e por isso não é mais possível identificar uma igreja no sentido do Novo Testamento, mesmo porque hoje atuam as igrejas, e sejam elas quais forem, cada uma reivindica para si mesmas o papel de ser a verdadeira igreja e cada uma delas apela para o Novo Testamento, não com o propósito de perceber a comunidade cristã, mas com o intuito de encontrar suas características especiais que lhe permita ser chamada igreja.
Por fim Brunner afirma que nenhuma igreja ou seita possa reivindicar para si o direito de ser a Ecclesia dos tempos apostólicos, porém mesmo assim elas continuam possuindo elementos que a caracterizam como sendo Igreja.
Essas “igrejas” ainda que não são a Ecclesia em si mesmas, por possuírem elementos desta e tendo o principal que é o seguir a Cristo Jesus, devem com certeza procurar promover o crescimento da Ecclesia.
A Ecclesia não é uma instituição, e Brunner deixa bem exposto isso em seu livro, por isso o crescimento não é apenas numérico e sim comunitário, ou seja, a comunhão é o sentido básico da igreja. Comunhão com Cristo e entre os homens e esta está ancorada pela Palavra e não somente pela Palavra, mas também pelo poder do Espírito Santo. A reconciliação por meio da cruz de Cristo acontece e isso gera a comunhão cristã.
Ao que parece Brunner então identifica a solução para o problema da igreja. “Onde Jesus Cristo está presente deste modo entre os homens, ali existe a Ecclesia dinamicamente”. Isso segundo ele desfaz o mero conceito da igreja invisível, visto que se há aplicação da Palavra e a manifestação do Espírito é clara em amor e serviço cristão, a reconciliação da cruz é latente. Logo a comunidade cristã está ativa no meio da igreja, na vida de seus membros e de forma palpável e visível.
A igreja invisível de certa forma passa a ser reconhecida através das obras manifestadas na igreja visível, e estas obras condizem claramente com a da Ecclesia do Novo Testamento e ainda que não haja todas as características da comunidade cristã neotestamentária, ela se identifica com a Igreja verdadeira.
Nenhuma igreja pode se tornar a Ecclesia do Novo Testamento, o que deve ser feito é aceitar a história da igreja e deixar de procurar a verdadeira Ecclesia como tal, se adequando o máximo possível com as Escrituras, não negligenciando o poder de Deus que pode atuar em qualquer circunstância.
Aconteça o que acontecer novas organizações virão a ser desenvolvidas e nenhuma delas será de fato a Ecclesia, pois todas serão organizadas de maneira institucional, o importante é que estas estejam firmadas sobre o amor fraternal e a disposição da ação do Espírito Santo.
O que é necessário, e nisso Brunner fala acertadamente, é desenvolver uma verdadeira comunhão e não apenas um comunismo deturpado.
Com certeza as igrejas continuaram crescendo e o importante é que elas estejam voltadas para a Palavra de Deus e vivendo a vontade dEle em Cristo Jesus o cabeça da Igreja.
Um ponto que ainda não concordo com Emil Brunner é que o ecumenismo geral seja a melhor maneira de manter a comunidade cristã.
Termino com as palavras do autor: “A Igreja (no sentido institucional) é uma forma evoluída historicamente, um vaso da Ecclesia; não foi dada para ela a promessa de invencibilidade e durabilidade eterna, mas somente para a Ecclesia”.
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