CONSIDERAÇÕES SOBRE A REFORMA PROTESTANTE
Pr. Jôer Corrêa Batista
Não é feriado e nem dia santo, está ausente de nosso calendário e é menos comemorado que o haloween. Não é uma data do civismo pátrio e nem rememora algum ato intrépido de um vulto de nossa história. Não promove pontos facultativos nas repartições públicas e nem rende homenagens a alguma classe trabalhadora. Talvez, por esses motivos, o Dia da Reforma Protestante passe despercebido até mesmo daqueles que se consideram seus herdeiros (evangélicos históricos e pentecostais) e daqueles que, embora sejam conseqüência da reforma protestante, se afastaram de seus princípios elementares e essenciais (neopentecostais).
No dia 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano e professor de Teologia Martinho Lutero afixou à porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha, as suas Noventa e Cinco Teses, que tiveram como propósito convidar os acadêmicos para um debate público. O pano de fundo principal do debate seriam a venda das indulgências e outras questões teológicas e práticas controvertidas. Por esta razão, o dia 31 de outubro passou para a história como símbolo fundamental do movimento protestante.
A Reforma Protestante do século XVI foi um fenômeno variado e complexo, que incluiu fatores políticos, sociais e intelectuais. Todavia, o seu elemento principal foi religioso. Não foi um acidente isolado na história, mas resultado de circunstâncias e influências variadas, inclusive dos chamados pré-reformadores. Dado a ausência de espaço e tempo para laborar com a gama de fatores históricos envolvidos, focalizaremos as perspectivas religiosas do movimento, especialmente considerando a sua relevância para os nossos dias.
Um bom ponto de partida talvez sejam os fatos relacionados ao imperador Carlos V, dos Germanos, que em 1543 enfrentava conflito contra a França. Preocupado com a divisão ocorrida em seu reino por causa da Reforma Protestante, Carlos V buscou uma trégua entre as partes declarando que nenhum lado sofreria prejuízo por questões de diferenças religiosas, até que o caso fosse julgado no concílio, e que os dois grupos teriam preservado seus direitos até lá. Tal medida provocou uma severa repreensão do pontífice da Igreja Romana, Paulo III, que se sentiu ofendido por ter sido colocado em pé de igualdade com “os heréticos”. João Calvino, por sua parte, confrontou as acusações do Papa Paulo III, publicando um tratado sob o título A necessidade da Reforma da igreja. O tratado de Calvino apresentava as razões da Reforma. Capítulo importante da história, esta obra ajuda a compreender os reais motivos que levaram esses homens a proceder a Reforma da Igreja. Muito embora exista uma enormidade de argumentos que tentam desvendar os motivos da conhecida Reforma Protestante, alguns deles já bastante popularizados, é preciso ouvir o que os próprios reformadores têm a dizer. O que os levou a tal atitude? Quais são, essencialmente, as razões para a separação? Justificam-se medidas tão drásticas dos reformadores? Calvino nos diz por que a Reforma era necessária e não capricho de religiosos rebeldes.
Quatro razões principais são apontadas. Em primeiro lugar, o modo como Deus deve ser adorado, segundo Calvino, o principal propósito é conhecê-lo como ele é, suas virtudes e atributos, bem como sua santidade, justiça, sabedoria, etc., e então adorá-lo e nos render à sua majestade e poder, e buscar somente nele todas as coisas. Em segundo lugar, Calvino aponta a fonte da qual a salvação é obtida. Não somente a doutrina da justificação, mas tudo o que repousa sobre essa verdade crucial. Inclusive nossa relação com Deus que emana dessa doutrina. Em terceiro lugar, os sacramentos, mais especificamente sua administração correta. Elementos que sustentam e mantêm o Cristianismo. E, finalmente, o governo da igreja, inclusive a aplicação da disciplina do Senhor.
Embora tal obra possa nos esclarecer os motivos da Reforma Protestante, esses dados não são considerados relevantes para o homem contemporâneo nem lhe dá razões para celebrar esse dia e nem os motiva a fazê-lo. A centralidade da Escritura, a Justificação pela Fé e o Sacerdócio de todos os crentes, por exemplo, deveriam ser suficientes para demonstrar a relevância da reforma em nossos dias. Mas além destes é recomendável lembrar dois aspectos sobre a teologia reformada que revelam a relevância desses princípios para o homem moderno: a piedade e a sociedade.
A primeira edição das Institutas de Calvino, em 1536, tinha longo título de Institutas da Religião Cristã, contendo virtualmente toda a soma da piedade e tudo o que necessita ser conhecido sobre a doutrina da salvação: uma obra que vale a pena ser lida por todos os cristãos que têm zelo pela piedade. Aos olhos de Calvino e dos protestantes, a teologia não é um exercício acadêmico estéril, sem implicação para os seres mortais envolvidos com a batalha da sobrevivência e da vivência digna e feliz. Mas é a busca do conhecimento sobre Deus que requer uma resposta piedosa, reverente, prática e conseqüente. De fato, não se trata de uma novidade, mas os reformadores retomam assim o que desde o início foi crido pela igreja cristã, e abandonado em grande medida por essa mesma igreja, ou seja, que a teologia deve levar à piedade e que a piedade se revela na vida e ações cotidianas.
Por esta razão, a teologia protestante requer mudanças nas relações sociais. Não se trata de um emaranhado de conceitos religiosos individualistas, como se tal teologia não tivesse resposta ao mundo. Mas são verdades que alteram a cosmovisão do que crê, e provocam uma maneira diferente de lidar com o mundo e as pessoas. Sobre política, por exemplo, Calvino diz em suas Institutas: “Ninguém deve duvidar que a autoridade civil é uma vocação não somente santa e legítima diante de Deus, mas também a mais sagrada e de longe a mais honrosa de todas as vocações em toda a vida dos homens mortais”, e acrescenta em seu comentário ao Livro dos Salmos: “Um governo justo e bem-regulado se distinguirá por preservar os direitos dos pobres e dos afligidos.” Na área econômica, Calvino exaltou o trabalho e delimitou a cobrança de juros, submetendo-à lei bíblica do amor. E muito mais poderia ser dito acerca da educação e das relações sociais.
Então, qual a razão de se comemorar a Reforma Protestante? Não é por uma questão de saudosismo ou apego à tradição, mas significa reafirmar os fundamentos bíblicos dos reformadores, sem os quais ficaremos à deriva no mar de incertezas que caracteriza a presente era. E especialmente que os herdeiros da reforma não se tornem “protestantes que não protestam’’, acomodados a um tempo de fé irrelevante e inconseqüente.
Que ao celebrar esse dia não se exaltem vultos históricos e nem se idolatrem homens que, apesar de falíveis, foram decisivos na história, e que, embora importantes, nada mais foram senão homens falíveis nas mãos de um Deus infalível. Que ao Celebrar este dia retomemos um dos seus princípios mais basilares: Soli Deo Gloria.
Pr. Jôer Corrêa Batista
é pastor efetivo da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia
Texto publicado no jornal Diário da Manhã do dia 31/10/2008